ARIRANG, do BTS: um recomeço que precisa ser vivido
Devo dizer que passei o último ano bem “distante” do BTS e não esperava muitas coisas desse omeback — seria estrondoso, sem dúvidas, mas não achei que estaria tão empolga como agora por exemplo escrevendo mais um artigo sobre eles rsrs. Existe algo diferente em Arirang. Não é só um comeback depois de anos de pausa, não é apenas um novo álbum — é um retorno que carrega ausência, expectativa e uma necessidade muito clara de reconexão. O BTS não volta apenas para performar, eles voltam para sentir de novo, e mais do que isso, para tentar reconstruir essa troca com o público. E isso já fica evidente logo na primeira faixa.
Corpo a Corpo
“Body to Body” começa de forma inquieta, quase urgente, com a repetição de “I need”. Mas existe um detalhe ali que passa despercebido numa primeira escuta e que carrega muito significado: quando o J-Hope puxa esse início, o som de “I need” pode facilmente soar como “Ami” — e isso não é por acaso.
No começo da carreira, os meninos tinham dificuldade em pronunciar “Army” por conta da estrutura da língua coreana, que não trabalha o “R” da mesma forma. Então “Army” virava “Ami”. E aqui, mesmo que não seja literal, a sonoridade evoca exatamente isso. É como se, logo na abertura, eles estivessem chamando o público — de um jeito quase nostálgico, quase íntimo.
A partir daí, a música se abre como um pedido claro: eles precisam do palco, da energia, das pessoas. Quando dizem que precisam que o estádio inteiro pule, não é só sobre espetáculo — é sobre presença real, sobre aquela troca que não pode ser simulada.
E é nesse ponto que entra uma das críticas mais diretas da faixa.
“Larguem os telefones, vamos nos divertir”
A frase funciona como um recado. Durante o show em Seul, que foi transmitido globalmente, ficou evidente como muitas pessoas estavam mais preocupadas em registrar do que em viver o momento. Em vários momentos, o público não cantava, não reagia, não se movia — apenas filmava. Isso quebra completamente a experiência. O show deixa de ser coletivo e vira conteúdo.
“Body to Body” confronta exatamente isso. Eles não querem apenas ser assistidos, querem ser sentidos — e querem sentir de volta.
O conceito de “corpo a corpo” se expande muito além do físico. Ele fala sobre o reencontro entre BTS e ARMY, sobre o retorno à rotina intensa que sempre definiu o grupo, mas também sobre uma tentativa de reconexão com a própria identidade. Existe uma urgência em voltar ao que era real, ao que não dependia de métricas, números ou validação digital. No fundo, fica uma pergunta silenciosa: ainda somos os mesmos para vocês?
Quando mencionam a primeira fila, isso também ganha um peso simbólico. O lugar que deveria representar a conexão mais intensa acaba se tornando, muitas vezes, o espaço da melhor captação — não da melhor experiência. A proximidade física não garante mais presença emocional, e a música parece provocar exatamente esse incômodo.
Som e construção: um caos intencional
Musicalmente, “Body to Body” mistura elementos de hip-hop, eletrônico e pop experimental, com uma energia que remete a estádio, mas ao mesmo tempo tem algo quase caótico. A batida é pulsante, repetitiva, construída para movimento — para pular, para responder fisicamente.
Existe uma sensação de excesso proposital: camadas, repetições, gritos coletivos, chamadas. Tudo isso reforça a ideia de multidão, de aglomeração, de corpo a corpo. Não é uma música feita para ser ouvida parada — ela exige reação.
E isso conversa diretamente com a proposta da letra.
Os nomes por trás da música
A composição também ajuda a entender essa mistura. Além dos nomes já conhecidos dentro do BTS — como RM, Suga, J-Hope e o produtor Pdogg — a faixa traz uma combinação interessante de colaboradores internacionais.
Diplo, conhecido por trabalhar com música eletrônica e pop global, ajuda a construir essa energia de festival e multidão. Já Ryan Tedder traz uma estrutura mais pop, mais pensada para impacto e repetição.
Nomes como Teezo Touchdown adicionam uma camada mais alternativa e experimental, enquanto compositores como Kirsten Spencer, Maxime Picard e Akira Akira contribuem para essa construção híbrida, que não fica presa a um único estilo.
O resultado é uma música que soa global, mas que ainda carrega identidade — exatamente o tipo de equilíbrio que o BTS vem tentando construir nos últimos anos.
O momento em que “Arirang” entra
E então, quase como uma quebra emocional dentro do caos, surge o trecho de Arirang. Essa escolha não é estética, é narrativa. “Arirang” carrega sentimentos de saudade, separação, abandono e resistência, sendo uma das expressões mais profundas da cultura coreana e do sentimento coletivo conhecido como han.
A inserção desse trecho logo na primeira faixa conecta tudo: o passado com o presente, o global com o local, o BTS artista com o BTS raiz. É como se, no meio de toda a energia moderna e caótica, eles lembrassem — e nos lembrassem — de onde vieram.
No fim, “Body to Body” funciona como um convite. Não é uma exigência, mas um chamado. Eles querem que o público esteja ali de verdade, vivendo essa nova fase junto com eles. Não para registrar, mas para sentir. Existe uma tentativa clara de reconstruir essa conexão de forma humana, direta e urgente. E talvez seja exatamente isso que define o início de Arirang: não um retorno ao que era antes, mas uma busca sincera por algo que ainda faça sentido agora.
Uma expectativa que ficou no ar
Uma coisa que eu estava esperando — e que não aconteceu — foi ver o próprio BTS performando “Arirang” de forma mais direta. Não chega a ser uma decepção, mas era uma expectativa que eu criei, principalmente pelo que foi apresentado antes do lançamento.
Existe uma versão de “Arirang” já cantada por eles, então isso acabou reforçando ainda mais essa sensação de que talvez veríamos algo nesse sentido dentro do álbum ou das performances. Além disso, o material divulgado — especialmente a animação teaser — dava a entender uma conexão mais literal com a origem da música, quase como se eles fossem revisitar ou reinterpretar esse momento histórico e cultural.
Por isso, eu realmente esperei que isso acontecesse. Não aconteceu, e tudo bem — não tira a força do projeto — mas foi uma ideia que ficou ali, no ar. E, sinceramente, ainda não parece algo totalmente descartado. Talvez isso apareça em algum outro momento dessa era.
A minha análise é 100% baseada nos meus 6 anos acompanhando o bangtan e vista da minha perspectiva, nada profissional na área — e acho importante deixar isso claro; eu só gosto de ter um parecer sobre o que consumo. Dito isso, “Body to Body” também pode ser entendido de uma forma muito mais leve e direta: esse “corpo a corpo” soa quase como um “hey, bro, vamos nos divertir nessa nova fase”, algo que conversa com o próprio reencontro deles depois do período no exército — inclusive, como o J-Hope comentou no programa On Find Kany. Ao mesmo tempo, existe um lembrete importante que atravessa toda essa análise: eles são coreanos. E isso não é detalhe. Como o Namjoon já pontuou em entrevista para a Apple Music com Zane Lowe, a identidade deles continua sendo parte central de tudo que fazem.
E talvez seja por isso que a entrada de Arirang impacta tanto. Mesmo para quem não é coreano, a sensação é imediata — toca em algum lugar mais profundo, quase instintivo, como se carregasse uma emoção que ultrapassa linguagem e cultura. Com uma base cultural tão forte sendo apresentada logo no início do álbum, fica uma expectativa no ar: até que ponto Arirang vai mergulhar nessa identidade coreana? Será que estamos diante de um projeto mais enraizado culturalmente ou de um equilíbrio entre o global e o tradicional? Talvez essa resposta não esteja só aqui — mas nas próximas faixas.
Até Hooligan!
B E L L A ★
