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Analisando ARIRANG | Hooligan

Hooligan: estética, símbolo e o limite entre expressão e indução

“Hooligan” não é uma faixa que se esgota no som. Existe uma construção ali que vai muito além da música — e quando você começa a observar os detalhes de produção, direção e figurino, a leitura ganha outra dimensão. Nada está isolado. Tudo conversa.

Um dos pontos mais reveladores está justamente no figurino. O styling do MV foi assinado por Nick Royal e Peri Rosenzweig — nomes que já trabalharam com artistas como Lady Gaga e Travis Scott, ambos conhecidos por projetos visuais carregados de simbolismo, estética intensa e, muitas vezes, elementos que flertam com o ritualístico e o performático extremo. Isso por si só já coloca “Hooligan” dentro de uma linhagem estética específica — não é só K-pop, é linguagem global de alto impacto.

No MV, o BTS aparece com um figurino que foge do padrão “idol” tradicional. Há couro, estruturas rígidas, acessórios que lembram contenção, controle, domínio — elementos que dialogam com uma estética próxima do BDSM. E isso não está ali por acaso. Esse tipo de construção visual carrega códigos: poder, submissão, controle corporal, hierarquia. Mesmo que o espectador não reconheça conscientemente, o corpo reconhece a sensação.

Quando você junta isso com o restante da proposta, o quadro fica mais claro. A música trabalha repetição, grave intenso, comandos coletivos. O MV reforça com multidão padronizada, movimentos sincronizados, ambiente industrial frio e um uso agressivo de cores como preto, vermelho e branco. O vermelho, especialmente, aparece de forma quase líquida, espalhado pelo chão, criando a sensação de algo entre energia extrema e colapso. Não precisa ser literal para funcionar — basta sugerir.

E no meio disso tudo, surge a referência a El Cucuy. Uma figura ligada ao medo primitivo, ao desconhecido, ao que não precisa ser explicado para ser sentido. Isso desloca a música de um simples “caos divertido” para algo mais psicológico. Não é só festa. É estímulo + tensão.

O mais interessante é como isso se conecta com outras fases do próprio BTS. Em “Not Today”, havia uma multidão, mas ela tinha direção, propósito, resistência. Em “Hooligan”, a multidão continua — mas agora sem objetivo claro. Ela reage, se move, responde ao som, mas não questiona. A energia existe, mas está dispersa. O coletivo permanece, mas a consciência muda.

E é aí que o projeto fica mais inquietante. Porque não se trata apenas de estética pesada. Trata-se de uma construção que mistura:

estímulo físico (grave, repetição) estímulo visual (cor, contraste, textura) simbologia (medo, controle, coletivo) figurino com códigos de poder e submissão

O resultado é um estado específico: intensidade máxima com redução de filtro crítico.

Não é necessário afirmar intenções ocultas para perceber que existe uma linguagem sendo aplicada aqui — uma linguagem que já apareceu em outros grandes artistas e que trabalha com limites sensoriais e emocionais do público. “Hooligan” se encaixa perfeitamente nesse padrão, mas com uma identidade própria.

No fim, o MV não esconde que está criando um ambiente de tensão e controle. Ele mostra isso o tempo todo — nas roupas, na formação, nas cores, no som. A diferença é que, para muitos, isso passa apenas como estética. Para outros, vira pergunta.

E talvez seja exatamente aí que a música realmente começa.